Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O DNA do terror

Acusado de associar a guerra santa a uma característica muçulmana em seu novo romance, o americano John Updike rebate dizendo que não quis desumanizar o islã

por MEHAMMED MACK

Em "Terrorist" [Terrorista], romance cujo título pode causar irritação ou enfado a alguns leitores, John Updike tenta resolver um dos mais difíceis enigmas já enfrentados por esse escritor da Nova Inglaterra: penetrar na mente de um muçulmano jovem, ressentido e irado.
Para enfrentar esse desafio literário, Updike concebeu Ahmad, um coquetel molotov adolescente que mistura raças (mãe irlandesa, pai egípcio ausente); ódio e amor incipiente pelos EUA; e lealdades tanto à escola em que estuda quanto à mesquita que freqüenta, na sombria New Prospect, em Nova Jersey.

O menino sardento de fala mansa não precisa de estímulo para encontrar a fé, sem interferência de imãs enxeridos, e abandona todos os seus amigos e todos os traços de sua vida suburbana, optando pela companhia de Deus, "mais próximo dele do que sua veia jugular", expressão do Alcorão que Updike repete muitas vezes. O narrador indica sem muita sutileza que Alá talvez possa ser a figura paterna que falta a Ahmad, um sentimento que atraiçoa o conceito de um Deus sem forma tal como o entendem os muçulmanos.

Depois do segundo grau, Ahmad se acomoda, apesar da considerável inteligência e vocabulário, a um trabalho como motorista de caminhão, trabalhando para uma loja de mobília cujos proprietários são libaneses, naquilo que só pode indicar uma receita completamente árabe para o terror e o desastre.

Citando versos do Alcorão como "prova", Updike localiza a possibilidade de "jihad" violenta como traço característico do DNA muçulmano.

Mas o tratamento dado a Ahmad está longe de ser unilateral: Updike enfatiza que o adolescente chega ao terrorismo de maneira passiva, sob o estímulo do xeque Rashid, um iemenita sorridente que prega na mesquita e representa um discípulo do islã mais interessado na poesia do que na mensagem moral do Alcorão.

Em última análise, Updike atribui boa parte da culpa pela sedução de Ahmad à violência ao desespero do ambiente que o gerou -edifícios de apartamentos precários, tensões raciais e religiosas deprimentes e, acima de tudo, a falta de qualquer pessoa ou coisa que ofereça um exemplo de integridade ao qual ele possa se apegar.

O aspecto sombrio do livro ocasionalmente se atenua quando Ahmad percebe Deus como o aspecto sagrado da vida comum -seja no canto emotivo de uma cristã negra (Joryleen, talvez a única pessoa que Ahmad encare com afeto), seja quando o orientador vocacional de Ahmad, um judeu, consegue construir uma ponte laica até a consciência do rapaz.

Mas será difícil não encarar vizinhos e amigos muçulmanos com suspeita renovada depois de ler o romance. "Terrorista" se baseia na premissa de que o 11 de Setembro é um evento muçulmano característico, e não excepcional, como deixa entrever na entrevista abaixo, dada por telefone de sua casa, em Massachusetts.

PERGUNTA - Dada a distância que o separa do assunto de seu livro, a pesquisa deve ter desempenhado papel importante no processo de criação. Quais foram as suas fontes?

JOHN UPDIKE - Shady Nasser, um estudante de pós-graduação de Harvard que trabalhou como meu consultor para o idioma árabe. Minhas pesquisas, que evidentemente poderiam ter sido mais profundas, envolveram ler duas traduções do Alcorão e até um livro chamado "The Koran for Dummies" [O Alcorão para Leigos]. O relatório da comissão do 11 de Setembro ajuda a estabelecer o aspecto emocional das personalidades dos terroristas, e li diversos livros sobre o islã. A tradição dessa forma de ataque tem um longo passado.

PERGUNTA - A história de Jonas é mencionada muitas vezes nas discussões sobre terrorismo, e o sr. inclui um trecho dela como epígrafe -"e agora, ó Senhor, por favor tire minha vida, pois para mim morrer é melhor que viver. E o Senhor disse: "E você está certo em sua ira?'". Como veio a empregar essa citação?

UPDIKE - Eu a encontrei num panfleto da Igreja Episcopal. A outra epígrafe vem de Gabriel García Márquez ["a descrença é mais resistente que a fé porque os sentidos a sustentam"]. Fiquei tão surpreso por ele tê-lo dito de maneira tão crua, e imaginei que as duas citações ajudavam a emoldurar a questão da fé e também toda a raiva que meu jovem herói, Ahmad, sente quando seu pai o abandona e por tantas outras coisas, incluindo a cidade que o cerca. Ainda que não costume perder a calma com freqüência, ele sente a espécie de raiva fria que se enquadra perfeitamente na forma de sacrifício que está disposto a empreender.

PERGUNTA - Em algumas ocasiões o sr. deixou de fora detalhes cruciais, que poderiam humanizar o islã e torná-lo mais pluralista. O sr. se incomoda com a opinião que os muçulmanos possam vir a ter sobre o seu trabalho?

UPDIKE - Creio que não é algo sobre o qual eu tenha pensado demais. O livro, por natureza do ambiente em que transcorre, é bastante étnico, de modo que nele existe alguma coisa para ofender a quase todos -para ofender judeus, para incomodar irlandeses e, com certeza, para causar desagrado aos norte-americanos de ascendência árabe. Jamais me senti crítico em relação a Ahmad; ele é jovem e, como acontece freqüentemente com jovens, vive de modo absoluto o seu ardor, o ardor das ações que pretende praticar.

PERGUNTA - Ao se preparar para escrever o seu livro, o sr. leu outros escritores que tenham tratado de temas ditos terroristas?

UPDIKE - Li [o escritor britânico] Martin Amis.

Todo mundo em meu romance está tentando fazer o melhor. Explodir coisas, do ponto de vista da sociedade mais ampla, não é um ato de bondade; do ponto de vista de quem o faz, é um ato de guerra, uma necessidade.

PERGUNTA - Há neutralidade moral em "Terrorista"?

UPDIKE - Creio que o autor esteja basicamente entre as pessoas que desaprovam que coisas sejam explodidas. Creio que prefiro a ordem que existe a qualquer ordem hipotética que poderia existir se a ordem atual fosse desmantelada. Acredito, em termos gerais, que mudanças sejam realmente necessárias nas sociedades, mas prefiro que ela seja realizada por meios graduais, nada espetaculares e nada mortíferos.

PERGUNTA - O sr. usa um ponto de vista onisciente e faz alguns pronunciamentos bastante extremos. Nem sempre sabemos quando esses pensamentos provêm do narrador ou de Ahmad, o que cria uma ambigüidade tensa, ocasionalmente, como se bombas fossem detonadas e ninguém assumisse a responsabilidade. Essa técnica foi adotada de maneira consciente?

UPDIKE - Os pensamentos dele... Alguns são hostis, ele é muito hostil, na realidade. Sente que o mundo ocidental, o materialismo, a sexualidade, o consumismo, todas essas coisas que o Ocidente tem -basicamente, a face apresentada nos filmes e nas canções-, crê que tudo isso seja antagônico à sua fé, ao seu Deus. Portanto, quanto a isso, sim, ele é uma espécie de extremista. Existe um modo pelo qual compartilho da possibilidade de me sentir assim. Existe um egoísmo, uma podridão se espalhando pela sociedade, e isso oferece pouca orientação, pouca esperança, a espécie de esperança que a religião costumava oferecer, e ainda o faz, para muitas, mas de modo nenhum para todas as pessoas.

PERGUNTA - A mensagem que perdura ao final do seu livro é bastante pessimista. O sr. se considera como o Michel Houellebecq dos EUA?

UPDIKE - (Risos.) Eu me vejo como uma pessoa razoavelmente amistosa, patriótica, feliz, mas, quando escrevo, bem, algo mais interfere, vem à tona. Havia certo prazer em tentar enfatizar o caminho rumo à destrutividade, aqui, rumo ao pensamento do terror.

PERGUNTA - O senhor ainda acredita em humanismo e entendimento universal?

UPDIKE - Oh, com certeza! Como meta, sim, é algo que devemos almejar. Tendo a ser ridiculamente esperançoso com relação a conflitos e maneiras de evitá-los, mas acredito que estejamos muito longe do mundo feliz que estava supostamente raiando quando a Guerra Fria acabou. O mundo provou ser muito mais problemático, confuso e perigoso do que qualquer um poderia ter antecipado.

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Esta entrevista saiu no "L.A. Weekly".Tradução de Paulo Migliacci."Terrorist", de John Updike, editora Alfred A. Knopf, 310 páginas.
* Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 02 de julho de 2006. Ver também: Terrorista, de John Updike, publicado em 26 de janeiro de 2008.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O Leitor, esse desconhecido

por Marisa Lajolo & Regina Zilberman

QUEM É O LEITOR?

Se não podemos escrever a biografia do leitor, temos condições de narrar sua história, que começou com a expansão da imprensa e desenvolveu-se graças à ampliação do mercado de livros, à difusão da escola, à alfabetização em massa das populações urbanas, à valorização da família e da privacidade doméstica e à emergência da idéia de lazer. Ser leitor, papel que, enquanto pessoa física, exercemos, é função social, para a qual se canalizam as ações individuais, esforços coletivos e necessidades econômicas.

A história do leitor principiou na Europa, aproximadamente, no século XVIII, quando convergiram fatores que vinham tendo desdobramento autônomo. Nessa época, a impressão de obras escritas deixou de ser um trabalho quase artesanal, exercido por hábeis tipógrafos e gerenciado pelo Estado, que, por meio de alvarás e decretos, facultava, ou não, o aparecimento dos livros. Tornou-se atividade empresarial, executada em moldes capitalistas, dirigida para o lucro e dependente de uma tecnologia que custava cada vez menos e rendia cada vez mais.[1]

Esse objetivo, no entanto, só começou a se realizar plenamente quando o negócio de livros passou a contar com clientela capaz de consumir o produto, isto é, pessoas que dominavam com a necessária desenvoltura a habilidade de ler, o que adveio do fortalecimento da escola e da obrigatoriedade do ensino. Toas as revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX, a começar pela paradigmática, a da França em 1789, tiveram, entre outras, essas metas: afastaram o Estado das operações econômicas, facilitando o comércio, independente e o liberalismo financeiro, para envolvê-los nos projetos sociais, predominantemente os relacionados à saúde e à educação. Com isso, ficava o capital livre para usar o mercado da maneira que lhe aprouvesse.

Para a leitura se expandir a ponto de se transformar em prática social, foi também necessária outra mudança: deu-se uma até então inédita e a partir daí permanente valorização da família. Até o século XVIII, predominavam, entre as elites, os grupos unidos por laços de parentesco, que, graças a matrimônios de conveniência, formavam alianças políticas poderosas; entre as classes baixas, prevaleciam as corporações profissionais, expedientes que recorriam para se proteger da violência dos senhores feudais. Esse sistema se desfez depois do século XVII, quando se impôs o Absolutismo, fundado na soberania do Estado e corporificado na figura do monarca, e anularam-se as forças políticas adversárias, que impediam a centralização administrativa e desarticulavam a unidade nacional.

Este modelo de Estado foi útil à burguesia enquanto ela precisou combater o feudalismo e a aristocracia, para quem o conceito de família confundia-se com os casamentos a serem negociados entre seus membros. As revoluções dos séculos XVIII e XIX foram demolindo o regime absolutista e substituindo-o pela democracia e o liberalismo, ao mesmo tempo em que fortaleciam o padrão familiar resultante da ideologia burguesa ascendente.[2]

Enquanto instituição, a família é imprescindível ao projeto burguês, por constituir simultaneamente unidade e fragmento. Unidade porque apresenta laços internos sólidos, sustentados pela ideologia familista, que mistifica a maternidade, destaca o amor filiar, invoca deveres entre pais e filhos e sublinha o afeto entre seus membros; fragmento, por resultar da desagregação dos grandes grupos a que outrora se integrou.

A família é a miniatura da sociedade idealizada pela burguesia, pois contrapõe à força da ideologia que a sustenta a fragilidade de seu poder político. Seu âmbito de atuação é privado, ficando a esfera pública por conta e risco da economia de mercado. Sendo a privacidade o espaço que lhe é destinado, a família torna-se uma entidade política que se singulariza por sua despolitização.[3] Mas não deixa de constituir peça fundamental da sociedade moderna, pois a valorização da vida doméstica nasceu da desmontagem de outras forças capazes de desafiar o poder maior da burguesia e do tipo de Estado, despersonalizado e distante, por ela estabelecido. Por isso, ainda que não se confunda com uma camada social, com um partido ou com uma idéia, a família constrói e consolida a sociedade burguesa, organizando-a para aquém e para além das camadas sociais, partidos ou idéias.

É no interior desse modelo moderno de família que se intensifica o gosto pela leitura, por se constituir em atividade adequada ao contexto de privacidade próprio à vida doméstica. De outro lado, o saber ler, principalmente para os grupos religiosos, entre os quais se contam acima de tudo os protestantes e reformistas, interessados no conhecimento e difusão da Bíblia[4], passou a ser considerado habilidade necessária à formação moral das pessoas. Atitude individual ou praxe coletiva, silenciosa ou em voz alta, a leitura do folhetim semanal ou das Sagradas Escrituras invade o lar burguês, integrando-se ao cotidiano familiar e passando a constar das representações imaginárias da classe média, traduzidas, por exemplo, por pinturas e fotografias que retratam a paz doméstica abrigada pelo livro.

A leitura fortalece e se institucionaliza no avesso das práticas associadas aos modos tradicionais de narrar, de tipo oral, fundados na experiência vivida, de sentido comunitário e enraizados no meio rural, cujo desaparecimento Walter Benjamin lamenta.[5] Como se vê, não contradiz essas práticas, senão que as transporta para o meio urbano e para o universo domesticado a família burguesa. Não por acaso os primeiros livros de sucesso entre a infância européia, iniciadora da literatura infantil, resultaram da apropriação dos contos populares que circulavam entre os homens do campo.[6]

Contudo, cabe lembrar que, em suas formas mais modernas, a propagação da leitura depende ainda de uma valorização positiva do lazer, já que os livros constituíam uma das primeiras manifestações baratas e acessíveis de entretenimento.

Tal como aconteceu à literatura infantil, a indústria do lazer descobriu seu material primitivo entre a população rural. Os primeiros exemplos provieram da literatura de cordel, molde para a fabricação do folhetim, gênero que se expandiu nos centros urbanos, graças à difusão do jornal, e que colaborou com a estruturação e fortalecimento do romance.[7] Tornou-se, assim, o modelo das demais expressões de literatura de massa, até o momento em que outros produtos, veiculados com mais propriedade pelos meios de comunicação, substituíram o livro e a leitura, satisfazendo as necessidades de fantasia e efabulação com outras linguagens, mais eficientes e diretas.

Se é certo que leitores sempre existiram em todas as sociedades nas quais a escrita se consolidou enquanto código, como se sabe a propósito dos gregos[8], só existem o leitor, enquanto prática coletiva, em sociedades de recorte burguês, onde se verifica no todo ou em parte uma economia capitalista. Esta se concretiza em empresas industriais, comerciais e financeiras, na vitalidade do mercado consumidor e na valorização da família, do trabalho e da educação.

Foi nestas condições que os leitores, cada vez mais numerosos, se transformaram em público consumidor de uma mercadoria muito específica. Estes leitores de carne e osso, dos quais se ocupam os censos e que sustentam o negócio dos livros, passíveis, portanto, de serem historicizados e estudados estatisticamente, têm sua contrapartida textual: o leitor empírico, destinatário virtual de toda criação literária, é também direta ou indiretamente introjetado na obra que a ele se dirige. Assim, nomeado ou anônimo, converte-se em texto, tomando a feição de um sujeito com o qual se estabelece um diálogo, latente mas necessário.[9]

Este dublê do leitor de carne e osso, por hipótese, guarda com ele muitas semelhanças. Projeção do desejo do escritor, de suas memórias de leitura, da utopia de uma época ou reflexo de pesquisa de mercado, o leitor que o texto representa pode considerar-se, não sem razão, e com certeza sem hipocrisia, irmão e semelhante do leitor empírico, óculos por sobre o nariz e olhos atentos a linhas e entrelinhas.

Assim sendo, não apenas porque consiste numa das primeiras manifestações da indústria do lazer, nem porque não perdeu a natureza pedagógica que a fez ser primeiramente patrocinada por grupos religiosos, a leitura apresenta particularidades concretizadas na conceituação do leitor. Este se configura como sujeito dotado de reações, desejos e vontades, a quem cabe seduzir e convencer. Todo escritor, voluntariamente ou não, depara com essa instância da alteridade, procurando conquistá-la de um modo ou de outro. A forma como o faz sinaliza o tipo de comunicação que tem em vista e indica o modo como se posiciona diante da circulação de sua obra, vale dizer, da socialização de seu texto.

O tratamento dispensado ao leitor, que resulta na ficcionalização deste – forma de melhor gerenciar o que, por ficar aquém da página, fica além do alcance do escritor –, é lugar privilegiado para o início do desenho de uma história social da leitura. Volker Roloff sintetiza a importância que têm a tematização da leitura e a formulação textual do leitor para a produção dessa história:

Pode-se tomar como ponto de partida o fato de que os próprios autores – devido à sua particular experiência de leitura e capacidade de representação – detêm uma posição privilegiada para formular o problema da “leitura” e que os textos literários podem ser vistos basicamente de modo mais ou menos explícito, como tematização da leitura; deste modo, a história da leitura sempre pode aprender também com a análise dos textos literários representativos enquanto pontos de intersecção nos quais se encontram ler e escrever.[10]

Torna-se, assim, a tematização da leitura lugar privilegiado para o tecimento desta história não só por representá-la ou questioná-la, mas, principalmente, por tecê-la a partir da linguagem em que se criam tais leitores de papel e tinta.
__________
* Extraído de: LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1999, p. 14-17.
[1] Cf. Febvre, Lucien et Martin, Henri-Jean. L’apparition du livre. Paris: Albin Michel, 1971; Labarre, Albert. Histoire du livre. Paris: PUF, 1979; Steinberg, S.H. Five hundred years of printing. London: Penguin, 1979. Para uma história da leitura, v. Baumgärtner, Alfred Clemens (Hrsg.). Lesen – Ein Handbuch. Hamburg: Verlag für Buchmarkt-Forschung, 1974; Dann, Otto (Hrsg.). Lesegesellchaft und Bürgelishe Emanzipation. Ein europäisschen Vergleich. München: Beck, 1981; James, Louis (ed.). Print and the people 1819-1851. London: Penguin, 1978; Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985. A propósito da interferência do Estado, cf. Darnton, Robert. The literary underground of the Old Regime. Cambridge and London: Harvad University Press, 1992.
[2] Cf. Ariès, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Poster, Mark. Teoria crítica da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Shorter, Edward. The making of the modern family. Glasgow: Fontana-Collins, 1979; Stone, Lawrence. The family, sex and marriage in England 1550-1800. London: Pelican, 1979.
[3] Cf. Donzelot, Jacques. The policing of families. New York: Pantheon, 1979.
[4] Cf. Altick, Richard D. The English common reader. A social history of the mass reading public 1800-1900. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1963; Chartier, Roger. “Du livre au lire”. In: Chartier, Roger et alii. Pratiques de la lecture. Paris et Marseille: Rivages, 1985; Jauss, Hans Robert. Der Leser als Instanz einer neuen eschichte der Literatur. Poetica 7 (1975), 325-44.
[5] Cf. Benjamin, Walter. “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: _____. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[6] Cf. Richter, Dieter und Merkel, Johannes. Märchen, Phantasie und soziales Leben. Berlin: Basic Verlag, 1974; Röhrich, Lutz. Märchen und Wirklichkeit. Wiesbaden: Franz Steiner Verlag, 1974; Knoop, Ulrich. Die Verschriftlichung der Märchen durch die Brüder Grimm. Zeitschrift für Literaturwissenschaft und Linguistik 59 (1985): 82-93. Göttingen: Vandenhoek und Ruprecht, 1985.
[7] Cf. Schenda, Rudolf. Die Lesestoffe der kleinen Leute. Studien zur populären Literatur im 19. und 20.Jahrhundert. München: Beck, 1976; _____. Volk ohne Buch. Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe. München: DTV, 1977; Chartier, Roger. “Strategies éditoriales et lectures populaires. 1530-1660”. In: Martin, Henry-Jean et Chartier, Roger. Histoire de l’édition française. Tomo II. Paris: Promodies, 1985; _____. Lecures et Lecteurs dans la France d’Ancien Régime. Paris: Seuil, 1987.
[8] Cf. Marrou, Henri-Irenée. História da educação na Antiguidade. Brasília: Instituto Nacional do Livro; São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1978; Harris, William. V. Ancient literacy. Cambridge and London: Harvard University Press, 1989.
[9] Cf. Iser, Wolfgand. The implied reader. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978; _____. Der Akt des Lesens. München: Fink, 1976; Peter, J. Before reading. Narrative conventions and politics of interpretation. Ithaca and London: Cornell University Press, 1987.
[10] Roloff, Volker. “Von der Laserpsychologie des Fin de Siècle zum Lectüreroman. Zur Thematizierung des Lektüre bei Autoren der Jahrhundertwende”. In: Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O Ensino à Distância na USP

por Lincoln Secco*

Certa vez ouvi uma anedota que dizia mais ou menos assim: se Immanuel Kant ressuscitasse em pleno século XXI, ele se espantaria com quase tudo, menos com a escola. Ainda veria um professor, alunos, giz e lousa. Só agora me dei conta que essa piada podia ter um conteúdo crítico. Afinal, por que o ensino deveria ficar fora dos avanços tecnológicos que já dominam as outras esferas da vida social?

O ensino à distância democratizaria o acesso à universidade a custo baixo (sublinhe-se o custo baixo); acabaria com o ensino voltado somente para a elite; e não seria aplicado indiscriminadamente (médicos e engenheiros continuariam em ensino presencial).

Não precisamos perguntar por que uma maneira de ensinar mais barata serve para formar professores e não para formar médicos. A resposta seria evidente: professor é categoria que pode ser formada de qualquer jeito. Também não é necessário indagar porque os alunos mais pobres (supostamente beneficiados pela expansão das vagas de ensino à distância) merecem uma forma no mínimo incerta de educação enquanto os supostamente mais ricos continuariam no ensino presencial.

Talvez o problema não esteja na Univesp em si. E nem nos recusamos à formação para o mercado. Na USP como em todo lugar, o aluno já é virtual em si e por si mesmo. Ele é potencialmente uma mercadoria num mundo que é uma imensa coleção delas. Ele será destinado a isso. Nossa diferença não é gerar conhecimento crítico (embora o façamos), mas treinar para o mercado os melhores produtores ou extratores de mais valia. Entre uma aula e outra, às vezes questionamos isso tudo.

Numa Faculdade de Filosofia costumamos aprender que as formas de aparência expressam não técnicas ou coisas, mas relações sociais. Por trás do fetiche das técnicas, o processo ensino-aprendizagem continua a ser uma relação social. Na sua etapa superior (e numa universidade de excelência como a nossa) ocorre em salas de aula, laboratórios, hospitais etc. Mas não só. Também nos gabinetes dos professores, nos anfiteatros, nos pátios, nos cafés e lanchonetes, no bandejão, no Crusp, no ônibus lotado, na piscina, nos corredores, nas plenárias e assembléias, nas festas, nas greves, nos debates, nos seminários e congressos, nas rodas em que vicejam as anedotas dos professores...

Como costumamos dotar a técnica mais nova de poderes mágicos, acreditamos que ela pode substituir toda essa vivência.

Até o dolce far niente pode ser necessário ao estudante. Deitar na praça do Relógio e ler Einstein, Keynes, Freud, Debord, Braudel, Darwin e outros monstros pode (pasmem) ser uma experiência e tanto. Formar grupos de estudos, comer e beber juntos, olhar nos olhos são atitudes que não podem ser meramente “virtuais”.

Um exemplo: eu e alguns amigos jantávamos muito com o saudoso Professor A. L. Rocha Barros, do Instituto de Física da nossa universidade. Ele contava que um dia jogaram uma pedra na direção do aluno Fernando Henrique Cardoso e Rocha Barros conseguira puxá-lo para si, salvando-o. “Como me arrependo disso”, dizia o velho professor comunista jocosamente... Histórias como essas desaparecerão para alunos formados à distância.

Talvez os idealizadores da Univesp tenham esquecido: a formação do jovem não se resume ao conteúdo do ensino, seja numa sala de aula ou à frente de um computador. Sendo uma relação social entre pessoas, mediada por uma instituição como a nossa, negar às pessoas essa vivência universitária seria o maior dos erros.

Não se nega que cursos de extensão, pós graduação lato sensu etc. possam ser à distância. Mas a formação básica na USP nunca poderá sê-lo. É verdade que certas coisas se modernizam e supostos reacionários empedernidos se agarram ao mundo perdido das escolas de Könisberg do século XVIII. É mais ou menos como a mais velha relação humana: já existe o amor virtual e há quem o prefira; mas é difícil acreditar que ele seja melhor do que o concreto.
__________
* Professor do Departamento de História da FFLCH – USP.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Meta Amor Fases: coletânea de poemas - por Mauro Luis Iasi

CRISTÃO MOLOTOV

Certa vez, vi na foto
o guerrilheiro sandinista
pronto para lançar
seu coquetel molov.

Em seu peito balançava um crucifixo
em sua mão a garrafa de pepsi-cola flamejava

Percebi, então,
como as formas mais reacionárias
podem guardar os conteúdos
mais explosivos


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TRANSCENDÊNCIAS
para os camaradas e irmãos da PO metropolitana de São Paulo

Na massa universal
da matéria de nossos corpos
seja luz etérea de estrelas,
carne mineral de planetas,
ou fogo, ou água
ou planta, ou bicho

não vejo alma daquela
que no movimento
se apresenta a vida.

Aprendi que a religião
é o sol em torno do qual
gira o ser humano
antes de ver em si mesmo
o sol da sua existência.

Ordem do tempo
inimiga do novo
dona da culpa
ópio do povo

organização racional da tristeza
carrasco do meu desejo
árbitro dos castigos aplicados por nós
contra nós mesmos.

Assim, feuerbachianamente,
me tornei ateu.

Mas, quando os vejo...
com seu amor aos pobres,
com seu compromisso com a vida
na teia indissolúvel da solidariedade...

Quando os vejo
subindo as "sierras" de nossa América
com seus terços e fuzis
com sua fé e bravura...

Quando os vejo
nas madrugadas fabris
nas estradas acampados
repartindo o pouco pão...

Quando os vejo
reinventando a comunhão
renascendo a cada dia
fazendo da morte ressurreição...

Quando nos abraçamos
sobre nossa bandeira vermelha
chorando lágrimas de raiva,
alegria ou emoção...

Da inexistência de minha alma
chego a desejar
que esta vida se supere em outra
para abraçar mais uma vez
os nossos mortos.

E no calor vivo de nossas batalhas
onde construímos a cada dia
a aurora contra a noite que persiste
consigo ver, nitidamente,
entre a sombra e o escuro
o rosto sereno de um deus
que não existe.

__________
In: IASI, Mauro Luis. Meta Amor Fases: coletânea de poemas. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 50-53.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Lá se vai Benedetti, boa praça, boa gente

por José Carlos Ruy

O poeta e dirigente político uruguaio Mario Benedetti despediu-se da vida neste domingo. Perde a literatura, perde a humanidade, mas seu humor tranquilo e muitas vezes mordaz permanece na herança de seus escritos, expressão sensível e eloquente da consciência avançada da América Latina.

A literatura ficou de luto neste domingo (17): o grande poeta uruguaio Mario Benedetti deixou de viver. Ele tinha 88 anos de idade e deixa um legado de mais de 80 romances, ensarios, contos e principalmente poemas que fazem parte da mais elevada expressão do sentimento humano nesta parte do mundo e que registram a crença, como ele dizia, ''na vida e no amor, na ética e em todas essas coisas tão fora de moda''.

Mario Benedetti referiu-se a seu pai, na dedicatória do romance Primavera num espelho partido, que ele fora ''boa gente''. Os poemas de Benedetti dão ao leitor a impressão de que ele próprio podia ser definido assim, como ''boa gente''.

Militante e dirigente de esquerda (em 1971 ele foi um dos fundadores do Movimento 26 de Março, marxista leninista, expressão política do Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros), seus escritos oscilaram sempre entre um lirismo tocante e um compromisso social permanentemente reafirmado; muitas vezes, conseguiu a habilidade de unir estas duas dimensões, a lírica e a social, em poemas como este, escrito quando Che Guevara foi morto na Bolívia:

donde estés
se es que estás
si estás llegando
será una pena que no exista Dios

mas habrá otros
claro que habrá otros
dignos de recibirte
comandante
(do poema Consternados, rabiosos, 1967)

ou

Quizá mi única noción de patria
sea esta urgencia de decir Nosotros
quizá mi única noción de patria
sea este regreso al própro desconcierto
(do poema Noción de patria)

Ou

los obreros no estaban en los poemas
pero a menudo estavan en las calles
con su rojo proyecto y con su puño
sus alpargatas e su humor de lija
y su beligerancia su paz y su paciencia
sus cojones de clase
qué clase de cojones
sus ollas populares
su modestia e sy orgullo
que son casi lo mismo
(do poema Los espejos las sombras, 1976)

ou

Compañera
usted sabe
que pude contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo
(do poema Hagamos un trato)

São textos que exprimem uma experiência de vida intensa e rica, que se desdobrou em inúmeras atividades para ganhar a vida (empregado de uma oficina, taquígrafo, caixa, vendedor, contador, funcionário público, tradutor e jornalista, antes viver somente de literatura), e muitas vezes a amarga paciência do exílio. Seus poemas, disse o escritor argentino Pedro Orgambide na introdução a uma antologia, ''são o inventário de um homem de aparência simples, de gesto e voz medida, de um próximo, um 'fulano' que fala de amor'', de ''mulheres nuas, e leva às pessoas sua palavra despojada de solenidade'', perseverando em ''seu ofício de poeta que não é outra coisa senão seu ofício de viver.''

Militante desde a década de 1940 da luta pela paz, foi um incansável crítico do imperialismo dos EUA. Foi um dos fundadores e diretor, entre 1968 e 1971, do Centro de Pesquisas Literárias da Casa de las Américas, em Havana (Cuba). Em 1971, ano de fundação do Movimento 26 de Março, foi nomeado diretor do Departamento de Literatura Hispanoamericana na Faculdade de Humanidades e Ciencias da Universidade da República, de Montevidéu, cargo que manteve até 27 de Junho de 1973, quando um golpe de estado iniciou a ditadura militar no Uruguai. Em consequência, Benedetti renunciou ao cargo na Universidade. Exilou-se na Argentina, Peru e, em 1976, em Cuba. Só voltou ao Uruguai em 1983, depois do fim da ditadura.

No poema Digamos, ele escreveu

1.
Ayer fue yesterday
para buenos colonos
mas por fortuna nuestro
mañana no es tomorrow

2.
Tengo un mañana que es mio
y un mañana que es de todos
el mio acaba mañana
pero sobrevive el outro

No último domingo[17], o amanhã de Benedetti acabou, mas - como ele sempre soube - sobrevive em todos nós, os outros.

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* Fonte: Portal Vermelho, 18 de maio de 2009. Texto da imagem: ''Que a morte perca sua asquerosa e brutal pontalidade''.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Balzac encontra Beckham

por TERRY EAGLETON
PARA A "NEW STATESMAN"

Para o crítico Terry Eagleton, esquerdas superdimensionam o papel da cultura e se esquecem do caráter vulnerável da condição humana

A chamada "cultura" começou a espalhar-se em todas as direções na década de 1980. Como um endereço da moda ou uma caixa de uísque Glenfiddich, todo mundo queria um pouco dela. Onde antes "cultura" significava Bach ou Balzac, ela se ampliou para incluir a cultura da praia, a cultura policial, a cultura dos surdos, a cultura da Microsoft, a cultura gay, a cultura dos pára-quedistas e assim por diante. A cultura deixou de ser apenas obras de arte e passou a abarcar um modo de vida específico. Ela sempre tinha sido entendida assim pelos antropólogos.

A diferença é que eles pensavam, por exemplo, em cultura mexicana ou polinésia, e não tanto na cultura dos praticantes de caminhada nos vales de Yorkshire ou na cultura dos fisioterapeutas portugueses.

Mas hoje a cultura desceu do macro para o micro – de sociedades inteiras para uma série de grupos de interesses específicos no interior das sociedades. É mais questão dos Hell's Angels [clube de motociclistas dos Estados Unidos] do que da Grécia helênica. Naturalmente, isso suscita uma pergunta: quão micro é possível se tornar? Será que dois professores em uma escola de vila do interior constituem uma cultura? E o que dizer de Posh e Becks (David Beckham e sua mulher, a ex-Spice Girl Victoria, também conhecida como Posh Spice)?

Existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário: trata-se do esporte e, em particular, o futebol

O mais estranho é que a cultura dos praticantes de caminhadas nos vales de Yorkshire não gira em torno da caminhada, principalmente. A cultura não diz respeito tanto ao que um grupo faz (já que muitas pessoas fazem a mesma coisa) quanto à maneira específica como o faz. Matar pessoas não é exatamente parte da cultura militar americana, mas fazê-lo usando cabelos curtos e um vocabulário bastante restrito, sim. Cultura é questão de estilo e forma. Assim, não surpreende que ela tenha ganho destaque numa civilização na qual forma e estilo viraram produtos cada vez mais preciosos.

Ironicamente, porém, a cultura é também uma forma de resistência a essa civilização. Em sua preocupação com significados simbólicos e solidariedades locais, ela oferece uma alternativa ao abstrato e ao universal. As culturas dizem respeito a know-how, jeitinho e hábitos, muito mais do que a métodos racionais ou procedimentos conceituais. São o pano de fundo do comportamento cotidiano, algo visto como natural e evidente, a cor invisível da vida diária, o inconsciente coletivo da sociedade política. Cultura é o que todo o mundo sabe, sem saber que sabe.

Diferentemente da álgebra, a cultura é algo que você aprende não por meio do estudo, mas pela participação. É antes como uma criança aprendendo uma língua do que como um adulto aprendendo a montar uma mesa.

Força intuitiva

Desse modo, dentro de uma cultura as coisas funcionam por gestos, conhecimentos tácitos, implicações não verbalizadas. Essa é uma das razões pelas quais a cultura se mostra tão arisca ao universal, haja vista que gestos e implicações perdem a força quando são esticados para cobrir todo o espaço global.

Assim, o retorno à cultura é em parte uma reação contra o mundo globalizado e uniformizado. É uma revolta contra a morte das diferenças. A cultura é aquilo que você não tem em comum com a maioria das pessoas. Mas, como isso se aplica a todos, existe um sentido em que ela se cancela. O que todo mundo compartilha, no mundo pós-moderno, é a maneira ferrenha em que valoriza suas especificidades.

Se a cultura opera por nuanças e implicações, então a cultura, no senso amplo do termo (um modo de vida específico) possui a força intuitiva e o refinamento textural da cultura no sentido mais restrito (as artes).

Essa é uma razão pela qual faz sentido usar o mesmo termo para descrever as duas coisas. Não se pode dizer que uma obra de arte ou um modo de vida sejam "certos" ou "errados", como se poderia dizer acerca de uma estratégia política ou um código de ética. Seria como afirmar que a língua romena foi um engano. Nenhuma delas possui muito valor utilitário. A cultura é o que excede o útil e o necessário. Precisamos de caixas de correio, mas não precisamos pintá-las de vermelho.

A cultura valoriza o habitual e o afetivo, o "vivido" e o sensorial, algo ao qual o Banco Mundial não dá importância. Ela confere ao adjetivo "empresarial" um sentido diferente, menos frio. Nesse sentido, a mudança à qual estamos assistindo no significado de cultura -de maneira aproximada, de "viver civilizado" para "modo de vida singular e diferenciado"- envolve, também, uma mudança de gênero.

A cultura é uma idéia mais feminina do que masculina. É um conceito "quente", mais do que um conceito frio, como "instituição", ou assustadoramente gelado, como "gerenciamento de recursos humanos".

Entretanto conceitos "quentes" podem tornar-se quentes demais, a ponto de virarem incômodos. A cultura pode ser uma idéia não apenas criativa, mas claustrofóbica. "O que todo mundo sabe sem saber que o sabe" não constitui má definição da ideologia. O que é comunitário e aconchegante para alguns pode ser insuportavelmente tribal para outros. A cultura tende a agradar à tradição, não à razão, o que significa que tem o hábito de justificar-se por si mesma.

Um apelo à tradição cultural significa simplesmente que fazer algo por muito tempo é quase tão bom quanto ter razão. A razão pela qual se praticam assassinatos em defesa da honra ou linchamentos raciais é que esse é o tipo de coisa que se faz. Como as palavras "gosto" ou "mal", a palavra "cultura" significa, entre outras coisas, "não discuta". O que fazemos é o que fazemos. Não podemos justificá-lo racionalmente, mas tampouco você pode justificar suas objeções ao que fazemos.

Portanto, melhor seria declararmos uma trégua. Desde que você nos deixe continuar a praticar o infanticídio feminino, que é algo que nem sequer chama a atenção em nossa sociedade, nós lhe deixaremos continuar a praticar a violência doméstica que faz parte tão arraigada de sua própria tradição cultural.

O relativismo cultural desse tipo é extremamente conveniente para os poderes governantes. Se significa que eles não podem criticar outras culturas, também quer dizer que, como cultura, também eles são imunes a críticas. De qualquer maneira, não criticar alguém -por exemplo, os muçulmanos- não nos impede de bater neles. A sensibilidade cultural e o atraso político também podem manter relações amigáveis. Todo porta-voz neofascista já aprendeu a dizer "dele ou dela".

A cultura é capital

As culturas locais podem, de fato, representar um oásis num deserto de mesmice enfadonha. No entanto, se a diferença é cultivada com tanto afinco hoje em dia, é em parte porque ela vende. Podemos encontrar os mesmos restaurantes inimitáveis de hotel praticamente por toda parte. Nada é mais global do que o totalmente singular.

O local é vendido e promovido em todo o planeta. Se o capitalismo passa por cima de algumas culturas locais, ele também ajuda a criar outras. A hostilidade em relação ao universal não chega a representar má notícia para aqueles cujos interesses seriam ameaçados por qualquer conversa sobre direitos humanos e lutas globais interconectadas.

Por que outra razão a cultura tem assumido um peso tão grande nos últimos tempos? Uma resposta é óbvia: vivemos numa época em que, pela primeira vez, a cultura virou parte-chave da produção em massa de bens para compra e venda. Hoje a cultura é capital, e o capital é saturado de cultura -de signos, estilos, narrativas e imagens. Trata-se de uma mudança carregada de implicações, já que, ainda durante o modernismo do século passado, a cultura se enxergava como o oposto completo da produção de bens. Seu trabalho, na época, era julgar essa produção, não fazer parte dela.

Mas existem outras forças em ação, também. Nas últimas três ou quatro décadas, os movimentos de esquerda mais inovadores e criativos têm sido aqueles nos quais a cultura desempenha papel vital. O feminismo, a militância étnica, o nacionalismo revolucionário: para essas três correntes políticas, a cultura -no sentido amplo de linguagem, identidade, símbolo, tradição e comunidade- é uma parte imensa daquilo que está em jogo. Longe de serem acessórios agradáveis, esses elementos criam os próprios termos da discussão política.

Na Grã-Bretanha da era vitoriana e do início do século 20, a cultura representava os valores fundamentais com os quais todos podíamos concordar, ancorados muito fundo sob nossas diferenças mesquinhas. Eu poderia ser dono de um moinho e, você, um varredor de rua, mas Shakespeare falava àquela parte de nós dois que era universal. Se as artes eram importantes, era porque conferiam voz a essa humanidade comum. Assim, elas e os valores que elas representavam podiam ser chamadas para exercer um papel na resolução de conflitos da vida real.

Isso envolvia a premissa um tanto quanto curiosa de que a exposição à grande arte faria de nós pessoas melhores. Se nossa era atual vem passando por uma crise de cultura, isso se dá em parte porque essa premissa não conseguiu sobreviver a duas guerras mundiais sangrentas. De qualquer maneira, a idéia de deixar de lado nossos conflitos em nome da unidade e da harmonia parecia conveniente demais para nossos governantes. Normalmente são as vítimas às quais se pede que se mostrem desinteressadas.

Pés no chão

Assim, a cultura passou a ser, em lugar disso, um conceito imbuído, até a raiz, em conflito. Isso significa, entre outras coisas, que o conceito pôs os pés no chão. Mas o fez à custa de abandonar seu papel crítico e utópico. A maioria dos defensores da cultura, hoje, faz força para evitar frases como "humanidade comum". Quando as ouvem, eles recorrem a suas diferenças, com precisão pavloviana. Mas fazem-no num mundo em que a humanidade nunca antes esteve tão forçosamente unida diante dos mesmos perigos militares, políticos e ecológicos. Não existe nada de minimamente abstrato nesse tipo de universalidade. É a abstração curiosa que poderia fazer com que todos nós voássemos pelos ares.

Poucos dos problemas globais com os quais nos defrontamos hoje são problemas culturais, em qualquer sentido preciso do termo. O islamismo radical pode parecer uma exceção a essa norma, mas mesmo ele diz respeito mais a condições materiais do que a ideais espirituais. Os inimigos que enfrentamos são, em sua maioria, bastante antigos: miséria, guerra, doenças e catástrofes naturais. Não há nada de pós-moderno ou "na moda" em nenhum deles.

No entanto, espantosamente, a esquerda cultural continua a inflar a idéia da cultura para além de qualquer proporção tolerável. Ao insistir que a cultura desce até o fundo dos assuntos humanos, ela acaba por reprimir seu oposto, a natureza, com toda a implacabilidade do iluminismo que ela tanto odeia.

É verdade que existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário. Trata-se do esporte e, em particular, o futebol. Basta pensar em como seria transformada a paisagem social e política britânica se não mais existisse o futebol para fornecer às pessoas a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso de existência corporativa, a hierarquia, a lealdade, a agressividade selvagem, o combate gladiatório, o espírito de rivalidade, o panteão de heróis e a apreciação de habilidades estéticas que fazem falta tão grande ao cotidiano capitalista.

Como o sexo, a cultura não apenas pode ser subestimada mas também superestimada. É verdade que todo mundo precisa estar em algum lugar, como respondeu o amante, quando indagado pelo marido enfurecido por que estava escondido no guarda-roupas de sua mulher. Não existe humanidade "crua", não marcada pela cultura local.

Mas, se o fato de sermos animais culturais é fonte de divisões, também é o que temos em comum, universalmente. E dizer que somos todos animais culturais significa dizer que somos todos vulneráveis e carentes. Criaturas como nós, que precisamos de cultura para sobreviver, o fazem em razão de uma deficiência em sua natureza.

Todos os seres humanos nascem prematuros e, se a cultura (sob a forma de linguagem, parentesco, práticas de cuidar uns dos outros e assim por diante) não entrar em ação rapidamente para preencher esse vazio, morrem antes do tempo. Assim, se a cultura é o sinal da dianteira que temos em relação aos outros animais, ela é também sinal de nossa fraqueza. É sobre o alicerce dessa vulnerabilidade comum, e não de diferenças culturais, que qualquer política decente precisa ser construída.

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Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 05.12.2004.
Terry Eagleton é professor de teoria cultural na Universidade de Manchester e autor de, entre outros, "A Ideologia da Estética" (ed. Jorge Zahar) e "After Theory" (Depois da Teoria, Basic Books).Tradução de Clara Allain.

Sábado, 9 de Maio de 2009

Desonra, de J.M.Coetzee

DESONRA
J.M. Coetzee
São Paulo: Companhia das Letras, 2000

TEXTO DA ORELHA

Aos 52 anos, divorciado duas vezes, o professor David Lurie é um homem solitário, conformado, erudito e irônico. Não se incomoda com o desinteresse dos alunos por suas aulas de poesia. Cogita escrever uma ópera sobre Lord Byron, mas sempre adia o projeto. Acredita ter “resolvido muito bem o problema de sexo”: nas tardes de quinta-feira, visita uma prostituta com idade para ser sua filha, paga o devido e tem direito ao oásis de uma hora e meia num cotidiano de aridez existencial.

Sua vida, racionalizada de maneira burocrática, soçobra quando a prostituta o dispensa e, mesmo sabendo que é um erro, Lurie tem um caso com uma de suas jovens alunas, acusado de abuso, e desprezando os códigos do ambiente universitário, Lurie cai em desgraça. Torna-se um réprobo e se refugia na fazenda de sua filha, a única pessoa com a qual tem um vínculo afetivo. Toma então contato com a realidade da África do Sul pós-apartheid, país onde é “um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros”.

É uma realidade brutal, feita de vingança, banditismo, submissão. Brutalidade contra a qual a cultura ocidental é inútil: “Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra”, diz o narrador quando três negros tentam queimar Lurie vivo.

J.M. Coetzee constrói em Desonra personagens de carne e osso e, por meio deles, tece relações entre classes, entre homens e mulheres, entre pais e filhos, negros e brancos, entre seres humanos e animais, entre uma longa história de exploração e um presente de ressentimento explosivo.

Escrito com fluidez exemplar, o romance enfrenta problemas intratáveis da atualidade de um país subdesenvolvido. situado na terra de ninguém onde se misturam civilização e barbárie – região bem conhecida do leitor brasileiro – Desonra é uma resposta artística profunda à ferocidade avassaladora da realidade.

por Mario Sergio Conti